A palestra doutrinária será baseada nos itens 5 a 8 – “O ponto de vista” e “Uma realeza terrena”, do capítulo II: “Meu reino não é deste mundo” de “O Evangelho segundo o Espiritismo” de Allan Kardec, cujo texto segue abaixo. Palestrante: Kristianne Porta.
O ponto de vista
5. A ideia clara e precisa que se faça da vida futura dá uma fé inabalável no porvir, e essa fé tem consequências enormes sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista sob o qual eles encaram a vida terrena. Para quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples passagem, breve estação num país ingrato. As vicissitudes e tribulações dessa vida não passam de incidentes que ele suporta com paciência, pois sabe que são de curta duração e devem ser seguidas por um estado mais feliz. A morte nada mais terá de assustador; deixa de ser a porta que se abre para o nada para ser a porta da libertação que faculta ao exilado a entrada numa morada de felicidade e de paz. Sabendo que está num lugar temporário, e não definitivo, o homem encara as preocupações da vida com mais indiferença, resultando-lhe daí uma calma de espírito que abranda as suas amarguras.
Pelo simples fato de duvidar da vida futura, o homem dirige todos os seus pensamentos para a vida terrestre. Incerto quanto ao futuro, dá tudo ao presente. Não entrevendo bens mais preciosos que os da Terra, porta-se qual criança que nada mais vê além de seus brinquedos e tudo faz para os obter. A perda do menor deles causa-lhe pungente mágoa; um engano, uma decepção, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que seja vítima, o orgulho ou a vaidade feridos são outros tantos tormentos que transformam sua existência numa angústia perpétua, infligindo-se a si próprio verdadeira tortura de todos os instantes. Sob o ponto de vista da vida terrena, em cujo centro se coloca, tudo assume ao seu redor vastas roporções. O mal que o atinja, como o bem que toque aos outros, adquire aos seus olhos grande importância. Dá-se o mesmo com aquele que se encontra no interior de uma cidade: tudo lhe parece grande, tanto os homens que ocupam altas posições, como os monumentos. Contudo, se ele subir a uma montanha, homens e coisas lhe parecerão bem pequenos.
É o que acontece ao que encara a vida terrestre do ponto de vista da vida futura: a Humanidade, assim como as estrelas do firmamento, perde-se na imensidade. Percebe então que grandes e pequenos estão confundidos como formigas sobre um montículo de terra; que proletários e potentados são da mesma estatura, e lamenta que essas criaturas efêmeras que tanto se fatigam para conquistar um lugar que as elevará tão pouco e que por tão pouco tempo conservarão. A importância, pois, dada aos bens terrenos está sempre em razão inversa da fé que se tenha no futuro.
6. Dir-se-ia que se todos pensassem dessa maneira, tudo periclitaria na Terra, pois ninguém mais iria ocupar-se com as coisas terrenas. Não; o homem, instintivamente, procura o seu bem-estar, e mesmo estando certo de que só por pouco tempo permanecerá no lugar em que se encontra, ainda assim cuida de estar aí o melhor ou o menos mal que lhe seja possível. Não existe ninguém que, encontrando um espinho debaixo de sua mão, não o retire, para não se picar. Ora, o desejo do bem-estar força o homem a tudo melhorar, impelido que é pelo instinto do progresso e da conservação, que está nas Leis da Natureza. Ele, pois, trabalha por necessidade, por gosto e por dever, obedecendo, desse modo, aos desígnios da Providência, que o pôs na Terra para tal fim. Simplesmente, aquele que considera o futuro não liga ao presente mais do que relativa importância e facilmente se consola de seus insucessos, pensando no destino que o aguarda.
Deus não condena, portanto, os gozos terrenos, mas o abuso desses gozos em detrimento das coisas da alma; é contra tais abusos que se previnem os que aplicam a si próprios estas palavras de Jesus: Meu Reino não é deste mundo.
Aquele que se identifica com a vida futura assemelha-se ao rico que perde sem emoção uma pequena soma; aquele que concentra seus pensamentos na vida terrena assemelha-se ao pobre que perde tudo o que possui e se desespera.
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Fonte:
Texto acima da tradução de Evandro Noleto Bezerra.
Abaixo, link para a tradução de Guillon Ribeiro:
https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/887/o-evangelho-segundo-o-espiritismo/2144/capitulo-ii-meu-reino-nao-e-deste-mundo/o-ponto-de-vista
https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/887/o-evangelho-segundo-o-espiritismo/2148/capitulo-ii-meu-reino-nao-e-deste-mundo/instrucoes-dos-espiritos
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