Descalça, com os braços levantados e cheia de emoção, Ceuzany canta a faixa assinatura do seu último álbum, uma canção dedicada ao combate à violência doméstica, numa voz poderosa que provoca arrepios no bar de Cabo Verde.
Desde as primeiras notas, o timbre profundo mas elevado da canção, parte de uma nova geração da música cabo-verdiana, suscita aplausos.
“Chega! Estamos desistindo, siga seu caminho, estou feliz sem você”, cantam várias mulheres na plateia, juntando-se ao músico que chega às lágrimas.
Nesta noite de finais de Maio, no Mindelo, cidade do arquipélago da ilha de São Vicente, os transeuntes que reconhecem a cantora param na rua para se juntarem ao concerto.
A voz de Ceuzany varia de agudos cristalinos a graves profundos, enquanto ela toca de tudo, desde jazz a slam, comandando o palco com cabelos loiros ondulados e brincos emoldurando seu rosto radiante.
No dia anterior, ela irradiava uma energia contagiante sob as luzes brilhantes de uma gravação de um videoclipe, dançando com abandono em um terno prateado de strass e chapéu panamá ao som da percussão galvanizante de seu último e quarto álbum.
O disco mistura saxofone, percussão e cavaquinho, popular instrumento de quatro cordas, embora algumas músicas sejam mais despojadas, com a voz de Ceuzany e um piano acústico, ou um ritmo oscilante de zouk contra o som quente do ukulele.
“Comecei a cantar aos 12 anos num concurso em Cabo Verde e desde então não parei”, disse Ceuzany Pires, 35 anos, à AFP com um sorriso radiante.
“A minha avó sonhava em ser uma artista de renome em Cabo Verde, mas os pais dela não queriam que ela cantasse”, disse a mãe de dois filhos.
“Ela sempre cantava serenatas em casa e eu sempre escutava. É graças a ela que tenho esse gosto pela música e que adoro cantar”, acrescentou.
– ‘Alma passando’ –
Ceuzany é frequentemente comparado à lendária Cesária Évora, a “diva descalça” que apresentou ao mundo dois géneros tradicionais da música cabo-verdiana: a morna, que se caracteriza por melodias suaves e nostálgicas e a coladeira, que apresenta um ritmo mais rápido.
“Ceuzany é uma das herdeiras de Cesária Évora, pois é uma grande cantora de morna”, disse o seu produtor, José Da Silva, que já foi produtor de ambas as mulheres.
“Ceuzany é capaz de injetar um pouco de rap na coladeira. Ela se sente tão confortável com artistas de música urbana quanto com os tradicionais”, disse ele.
Calorosa e divertida, Ceuzany é também “uma verdadeira filha do Mindelo, possui aquela mesma espontaneidade que Cesária tinha”.
A própria cantora diz que se sente “imensamente honrada” por fazer parte da Orquestra Cesária Évora, que se apresenta pelo mundo para manter viva a música da “diva dos pés descalços” falecida em 2011.
Para o músico Hernani Almeida, que fez os arranjos do último disco de Ceuzany e compôs diversas de suas músicas, ela é única entre a nova geração.
“Quando Ceuzany canta, você sente a alma chegando”, disse o guitarrista, acrescentando que “toca muito as pessoas”.
– ‘Rainhas’ –
As canções de Ceuzany evocam Mindelo, os altos e baixos do amor e temas difíceis como a devastação do crack (“pedra”) no empobrecido arquipélago localizado ao largo da África Ocidental.
Ela diz que seu quarto álbum é muito especial para ela “porque trata da violência doméstica”.
“Já passei por isso”, disse Ceuzany, explicando que “juntei forças para sair de uma relação tóxica” que durou quase cinco anos.
A faixa-título e single “No tchal te li” (“Paramos aqui”) conta a história de um romance que se transforma em um ciclo de abuso físico e emocional.
Ceuzany, que desde então recebeu inúmeras mensagens e se envolveu com mulheres vítimas de violência doméstica, transformou a música num hino de libertação e auto-empoderamento.
“Acredito que as mulheres merecem ser tratadas como rainhas. Essa é a mensagem que quero partilhar com todas as mulheres, em Cabo Verde e em todo o mundo, porque se consegui sair de uma relação tóxica, vocês também conseguem”, disse ela, sem conseguir conter as lágrimas.
A artista vive um momento crucial na sua carreira, vendo os primeiros sinais de reconhecimento internacional.
Localizada em 2022 pelo cantor francês Christophe Mae, gravou com ele um single em Cabo Verde intitulado “Le Pays des merveilles” (“País das Maravilhas”), uma homenagem edificante ao seu país natal.
Em 2024, ela se juntou a ele para uma turnê de 40 datas pela França.
No início de junho, Ceuzany venceu também a categoria “Música Tradicional do Ano” nos Cape Verde Music Awards.
Após o seu concerto no Mindelo, Ceuzany cumprimentou fãs e amigos com abraços antes que as pessoas se dispersassem na noite ventosa.
“Quero gravar mais música, lançar mais discos, levar Cabo Verde mais longe, levar-me junto. E continuar a cantar para o meu povo”, disse.
lp/bfm/giv/abs
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