A família real britânica pode exercer um poder imensurável, viver em castelos imponentes como o Castelo de Windsor e possuir jóias com séculos de história, mas como todas as outras pessoas, partilha segredos e, por vezes, até um guarda-roupa.
Para eles, moda é linguagem, estratégia e memória. E se há uma peça de roupa que incorpora perfeitamente esta combinação, é um tipo de casaco muito específico que liga três gerações principais. Diana, Princesa de Gales, Catarina, Princesa de Gales e Princesa Charlotte de Gales.
É um design instantaneamente reconhecível e rico em significado. Há poucos dias, durante a missa do Domingo de Páscoa na Capela de São Jorge, a filha do Príncipe e da Princesa de Gales voltou a chamar a atenção para esta peça.
Ela fez isso vestindo novamente um casaco feito sob medida, da Catherine Walker & Co, que ela havia usado anteriormente no Natal. Mas, além da repetição, o mais intrigante está nos códigos, nas cores contrastantes na gola, nos punhos e nas lapelas, e na silhueta inspirada tanto na gola Peter Pan quanto na histórica sobrecasaca.
Neste ponto, é seguro dizer que se há uma coisa que a realeza britânica domina é a chamada vestimenta diplomática. E neste caso a mensagem é clara: continuidade, legado e pertencimento.
Um dos elementos mais distintivos destes casacos é o contraste cromático. Punhos, golas, lapelas e até bolsos costumam ter um tom diferente do corpo principal da peça. O que pode parecer um pequeno detalhe, na verdade define toda uma estética.
Diana, Princesa de Gales, transformou isso em uma de suas assinaturas. Seus casacos, muitos desenhados por Catherine Walker & Co, brincavam consistentemente com essa dualidade de cores, agregando sofisticação, estrutura e um toque distinto e facilmente reconhecível.
Décadas mais tarde, Catarina, Princesa de Gales, herdou esta linguagem visual. Desde que começou a usar a marca, em 2011, ela incorporou esse tipo de casaco em momentos-chave, passeios oficiais, eventos institucionais e aparições simbólicas. Um dos exemplos mais claros foi o casaco cinzento com lapelas pretas que usou na Dinamarca em 2022, inspirado nas sobrecasacas navais do século XVIII.
Enquanto isso, a princesa Charlotte de Gales, apesar de nunca ter conhecido Diana, continua esta narrativa. Seu casaco em tom neutro com gola de veludo marrom não é coincidência; é uma reinterpretação infantil do mesmo código estético.
A casa que veste a realeza britânica
Fundada em 1977, Catherine Walker & Co estabeleceu-se como uma das mais importantes casas de alta costura nos círculos reais britânicos. Com sede em Chelsea, com um ateliê que segue a tradição parisiense, com oficinas especializadas em alfaiataria, bordado e costura, a marca veste há décadas mulheres-chave da monarquia.
Diana, Princesa de Gales, foi uma das suas maiores embaixadoras, encomendando mais de 1.000 designs ao longo da sua vida. Catherine, Princesa de Gales, deu continuidade a esse legado, usando a marca em mais de 40 ocasiões e consolidando-a como a sua referência em eventos estaduais.
Dentro do design elegante:
O outro elemento definidor destes casacos é a gola, e aqui a história torna-se fascinante. Embora agora associemos os colarinhos à formalidade, durante grande parte do século XVIII, eles eram quase inexistentes na moda masculina europeia. Na verdade, as peças mais elegantes eram completamente lisas nesta zona, enquanto as golas eram reservadas para a roupa interior ou para o uso doméstico.
Somente em meados do século 18 é que os colarinhos estruturados começaram a ganhar popularidade, fortemente influenciados pela alfaiataria militar britânica. A partir daí, a gola tornou-se um símbolo de status, autoridade e sofisticação. Hoje, esse legado continua vivo nos casacos reais, onde cada formato e corte carregam intenção.
A sobrecasaca é uma das principais referências históricas por trás desses designs. Este casaco masculino atingiu o pico de popularidade na Inglaterra vitoriana durante o século XIX. Sua silhueta é inconfundível. Na altura do joelho, ajustado na cintura, com abertura estruturada tipo saia.
Originalmente concebido como roupa informal, acabou se tornando o padrão da moda masculina formal. Catarina, Princesa de Gales, reinterpretou muitas vezes este estilo, adaptando-o a uma linguagem feminina e contemporânea. Seus casacos sob medida, com botões frontais e estrutura forte, são descendentes diretos desse design.
Em contraste com a rigidez da sobrecasaca, a gola Peter Pan traz suavidade e acessibilidade. Com o seu formato arredondado e plano, esta gola tornou-se popular no início do século XX e rapidamente foi associada à moda infantil.
No caso da Princesa Charlotte de Gales, seu uso carrega um claro simbolismo. Reforça sua imagem de inocência e doçura ao mesmo tempo que a conecta visualmente com sua mãe. Catarina, Princesa de Gales, também adaptou este estilo em versões mais nítidas e angulares, mais próximas do colarinho de uma camisa, conseguindo um equilíbrio entre tradição e modernidade.
Três gerações, uma mensagem:
O que pode parecer uma simples coincidência estilística é, na realidade, uma narrativa cuidadosamente construída. Diana, Princesa de Gales, Catarina, Princesa de Gales e Princesa Charlotte de Gales não compartilham apenas uma preferência por um determinado tipo de casaco, elas compartilham uma forma de comunicação através da moda.
Contraste de cores, golas estruturadas, qualidade do tecido e a escolha da mesma grife criam uma linha que atravessa gerações. Uma linguagem silenciosa que fala de legado, identidade e pertencimento.
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