Na Hollywood de hoje, a vogal errada pode custar-lhe o papel.
Florence Pugh vai de Derby ao Brooklyn e volta entre os projetos. Paul Mescal faz Maynooth soar como Malibu. Benedict Cumberbatch perde suas vogais de Oxbridge sempre que veste a capa do Doutor Estranho, achatando sua cadência em um tom monótono de Midtown. Nada disso é coincidência. É a lógica do mercado. O público global espera que as vozes correspondam aos mapas.
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Nem sempre foi assim. Na era do estúdio, os sotaques não estavam necessariamente ligados a lugares reais – eles eram uma abreviação do tipo de personagem. Hollywood funcionava com um “código de sotaque” tácito: o inglês sinalizava autoridade ou vilania – pense em todos aqueles inimigos de Bond ronronando com vogais Eton. Americano significava autenticidade; John Wayne, Jimmy Stewart e Sally Field ganharam confiança ao parecerem comuns, locais, “reais”. E o sotaque Mid-Atlantic – aquela voz híbrida com a qual ninguém nasceu, mas que todos aspiravam – transmitia glamour, de Cary Grant e Katharine Hepburn a Grace Kelly.
Mas esse sistema veio com dois pesos e duas medidas – um que favorecia os americanos e penalizava todos os demais. Quando Meryl Streep se tornou Margaret Thatcher, isso foi tratado como um feito olímpico de transformação. Quando Renée Zellweger acertou Bridget Jones, os críticos ficaram maravilhados com o fato de uma texana poder se passar por Londres. Mas o inverso nunca foi comemorado. Esperava-se simplesmente que atores britânicos e australianos interpretassem americanos. Hugh Laurie manteve seu sotaque arrastado na Câmara por oito temporadas; para o público dos EUA, essa era apenas a descrição do trabalho.
Alguns erros viraram folclore. O cockney de Dick Van Dyke em Mary Poppins ainda é ridicularizado, mas com carinho. Kevin Costner vagou por Robin Hood sem nunca parar em Nottingham, falando vocalmente. Yorkshire em Um Dia, de Anne Hathaway, e Cockney, de Don Cheadle, em Ocean’s Eleven, estão no topo das listas de “piores sotaques”.
Depois veio a Netflix – e com ela, a globalização do público. Os espectadores de todo o mundo tiveram subitamente acesso a programas de Seul, Madrid, Mumbai e Copenhaga. Squid Game, Money Heist, Blood Sisters, Sacred Games, Borgen, Roma – muitos legendados, alguns dublados – tornaram-se sucessos globais não apesar de seu som local, mas por causa dele. O público começou a sintonizar seus ouvidos com a especificidade. Depois que se fisgaram pelos verdadeiros ritmos do espanhol da Cidade do México ou das gírias das ruas de Lagos, não havia como voltar atrás. Os sotaques não eram mais uma barreira – eles eram um argumento de venda. E se um ator britânico ou australiano vai interpretar um americano, é melhor não apenas enganar um diretor de elenco – eles têm que passar no teste global de detecção.
As escolas de teatro já ensinaram: “sugira o som, mantenha a psicologia real”. Isso não sobrevive mais em um mercado onde o diálogo é reproduzido, legendado e memorizado. Stanislavski se preocupava com sua psique. O streaming se preocupa com o seu schwa.
O sotaque é o novo pacote de seis – só que mais difícil de falsificar. Uma estrela ainda pode esculpir seu abdômen, tapar os dentes e até falsificar seu currículo – mas não sua voz. A IA pode dublar você de Derby para Dallas com o clique de um botão, mas o público sente o cheiro da trapaça. No momento em que uma máquina assume as vogais, a performance deixa de ser sua. Por enquanto, o sotaque continua sendo um dos últimos lugares onde Hollywood não pode fingir – e um dos poucos onde o público ainda exige o real.
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