PESSOA NÃO IDENTIFICADA: Tudo bem. Como você está, Davi?
DAVID BYRNE: Olá. Oi. Oi.
PESSOA NÃO IDENTIFICADA: Que bom ver você.
SCOTT SIMON, ANFITRIÃO:
David Byrne estava preocupado por ter nos mantido acordados até tarde.
BYRNE: Você normalmente dá entrevistas tão tarde?
SIMÃO: De vez em quando. Eu – você sabe, quando estamos, tipo, na Sala de Situação da Casa Branca ou algo parecido.
BYRNE: Ah, tudo bem.
SIMON: Às vezes é isso que fazemos.
BYRNE: (Risos).
SIMON: David Byrne acabou de encerrar mais uma noite em seu movimentado “Who Is The Sky?” percorrer. É uma apresentação de música e arte performática onde músicos e dançarinos parecem pisar e voar alto em cenas e paisagens de florestas e ruas de cidades repletas de pessoas, arranha-céus, montanhas e protestos. O show também tem interlúdios onde David Byrne, que é um artista influente desde que foi vocalista do Talking Heads, a partir de meados da década de 1970, compartilha histórias sobre sua vida e sobre o mundo. Ele nos encontrou nos bastidores do Auditorium Theatre de Chicago.
Que show maravilhoso. Há…
BYRNE: Estou feliz que você tenha gostado. Estou feliz que você veio.
SIMON: Há muita alegria neste show.
(SOM DA MÚSICA)
SIMON: Você acha que precisamos disso agora?
BYRNE: Certamente que sim. Outras pessoas que viram isso – elas disseram a mesma coisa. Eles disseram, precisamos disso.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) Todo mundo ri e todo mundo chora. Todo mundo vive e todo mundo vive. Todo mundo come e todo mundo ama. Todo mundo sabe o que todo mundo faz. Todo mundo está passando por mudanças, cada complicação.
SIMON: É divertido estar de volta na frente das pessoas?
BYRNE: Já se passaram alguns anos, mas sim. Fiquei mais confortável com isso e…
SIMÃO: Com licença. Você ficou mais confortável com isso?
BYRNE: Mais confortável do que quando comecei.
SIMÃO: Ah.
BYRNE: Então foi mais uma compulsão.
SIMÃO: Entendo.
BYRNE: Foi uma forma de afirmar minha identidade ou algo assim. E agora é mais considerado. Eu tenho mais prazer, apenas puro prazer com isso. E percebo que posso brincar com a forma como um concerto musical pode ser. Isso é muito divertido.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) Todo mundo se pergunta o que você vai fazer. Tudo está mais perto. Tudo é verdade. Todo mundo está começando tudo de novo. Todo mundo está lá fora. Agora eles estão chegando. Todo mundo está…
SIMON: Conte-nos sobre a encenação do show. É incrível. Há cenas de Nova York. Há cenas de uma floresta. Há cenas à beira-mar…
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) Sejam bem-vindos à minha casa.
SIMON:…Cenas do seu apartamento.
BYRNE: Você vê…
SIMON: Tipo, móveis. Sim.
BYRNE: Você vê isso no show.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (cantando) Casa e jardim. Existem plantas e árvores. Faça uma inspeção mais detalhada.
BYRNE: Pensei: devo deixar as pessoas verem meu apartamento?
SIMÃO: Por que não?
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) Agora todo mundo está vindo para minha casa e eu nunca estarei sozinho. Sim, todo mundo está vindo para minha casa e nunca mais voltará para casa.
Fui inspirado por uma coreógrafa de dança alemã, uma mulher chamada Pina Bausch. Eu vi uma de suas peças. Houve apenas uma cena em que havia uma projeção de uma selva ou algo parecido. E não foi tão completo, mas meio que – pensei, você poderia fazer isso, onde parece que os artistas estão naquele ambiente. Eu disse, vamos ver se podemos usar as telas para nos colocar em ambientes diferentes que de alguma forma ressoem com as diferentes músicas ou com o mundo em que vivemos. Então pensei, ah, podemos nos colocar em uma floresta. Podemos nos colocar em uma rua. Podemos nos colocar na lua.
(Aplausos)
SIMON: Bem, e fiquei surpreso naquele momento. Você nos dá uma visão do céu, tipo, nos primeiros três minutos do show.
BYRNE: Sim.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) Todo mundo está tentando chegar ao bar. O nome do bar – o bar se chama Céu.
Esse momento específico é muito comovente para mim.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (cantando) Eles tocam minha música favorita.
Às vezes é meio que – eu meio que engasgo, e é um pouco difícil de…
SIMÃO: Sim.
BYRNE: …Continue.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) Eles tocam a noite toda. Ah, céu. O céu é um lugar…
SIMON: Sem revelar o desfecho, o que você sugere é: não olhe para o céu em busca do paraíso.
BIRNE: Sim. Sim. Sim. Eu meio que digo ao público, aqui está. Sim.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (cantando) Há uma festa. Todo mundo está lá. Todos partirão exatamente ao mesmo tempo.
SIMON: Posso perguntar-lhe sobre o autismo?
BYRNE: Claro. Eu simplesmente senti que era assim que eu era. É assim que vejo e entendo o mundo, e – não me senti mal. Não fiquei triste com isso nem nada parecido. E então algumas coisas positivas, como ser capaz de focar intensamente em…
SIMÃO: Sim.
BYRNE:…Um projeto ou escrever uma música ou o que quer que seja.
SIMON: Eu me pergunto se não é – de certa forma, não foi um verdadeiro estímulo criativo para você.
BYRNE: Acho que muitas das músicas que escrevo até agora têm o que foi descrito como, tipo, a qualidade de um antropólogo de Marte tentando entender o comportamento humano de alguma forma. E isso também vai junto com isso. Isso é bastante útil. Quero dizer, pode ser um pouco profundo e um pouco engraçado ao mesmo tempo.
(SOM DA MÚSICA)
SIMON: Sua música sempre foi diferente. Você não pode dizer, ah, isso pertence a isso. Pertence a isso. Sempre foi você.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) Parece que não consigo encarar os fatos. Estou tenso e nervoso e não consigo relaxar. Não consigo dormir. A cama está pegando fogo. Não me toque. Sou um verdadeiro fio condutor. Assassino psicótico, o que é isso?
Tenho idade suficiente para isso – o primeiro tipo de música pop que ouvi foi em meados e no final dos anos 60 e no início dos anos 70. E parecia que havia essa aprovação de que músicos e compositores pudessem experimentar e experimentar todos os tipos de coisas diferentes. Isso foi até incentivado, até o ponto em que era meio que esperado.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (cantando) Ah. (Vocalizando) ooh.
Então pensei, ah, é disso que se trata esta vida – experimentar constantemente, tentar coisas diferentes, ver o que funciona e o que não funciona. Você não deveria apenas se repetir indefinidamente. Presumo que essa seja a descrição do trabalho.
SIMON: É um show muito alegre, mas você tem algumas imagens angustiantes que aparecem no palco. Imagens recentes.
BYRNE: Sim. Tenho uma música antiga chamada “Life Durante Wartime”.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) Ouvi falar de uma van carregada de armas, embalada e pronta para partir. Ouvi falar de alguns túmulos perto da estrada, lugares onde ninguém conhece.
Retrata uma espécie de mundo que desceu para uma espécie de guerra de guerrilha urbana, em certo sentido. E foi escrito do ponto de vista dos protagonistas ou algo assim. E algumas delas parecem ser muito ressonantes e relevantes para as coisas que estão acontecendo hoje.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (cantando) Não há tempo para dançar ou fazer amores.
Eu pensei – bem no final da música, eu mostro muitas imagens de ataques do ICE e de pessoas sendo espancadas.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (cantando) Tenho três passaportes. Consegui alguns vistos. Nem sei meu nome verdadeiro. No alto de uma encosta, os caminhões estão carregando. Está tudo pronto para rolar.
SIMON: Por que foi importante para você fazer isso?
BYRNE: Não quero deprimir completamente as pessoas. Mas eu quero dizer, ah, não, estamos entretendo você, mas há coisas acontecendo no mundo. E estamos cientes disso e não vamos fingir que isso não está acontecendo.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (cantando) Agora.
SIMON: Você está dizendo alguma coisa ou está pedindo às pessoas que reflitam e cheguem às suas próprias conclusões?
BYRNE: Se eu puder fazer isso, não quero dizer às pessoas, façam isso. Seja assim, ou – toda a coisa teatral é espetáculo, não conte. Deixe-os ver o que é possível, em vez de dizer-lhes o que é possível.
SIMON: O que passa pela sua cabeça hoje em dia quando você canta, como sempre foi – a frase – sem parar?
BYRNE: (Risos) “Once In A Lifetime”, como sempre foi.
SIMÃO: Sim.
BYRNE: Esta não é minha linda casa. Esta não é minha linda vida.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: Você pode acabar morando em uma cabana de espingardas. Você pode se encontrar…
Para mim, é uma música sobre tentar entender, você sabe, o mundo, o mundo em que você vive. Coisas muito mundanas – sua esposa, sua casa, seu carro, o que quer que seja. Eu sei dessas coisas? Eu pertenço aqui? Eu entendo isso? E então o refrão é sobre…
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) Deixando os dias passarem.
REFRÃO NÃO IDENTIFICADO: (Cantando) Deixe a água me segurar.
BYRNE: …A água e deixar os dias passarem. É – os refrões, para mim, são mais sobre esse tipo de entrega alegre, o contraste com o questionamento e o enigmático nos versos.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: Como faço para resolver isso? Você pode se perguntar: bem, onde está aquele automóvel grande?
Apenas fazendo perguntas. E então a resposta parece ser uma espécie de transcendência e entrega.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) Deixando os dias passarem.
REFRÃO NÃO IDENTIFICADO: (Cantando) Deixe a água me segurar.
BYRNE: (Cantando) Deixando os dias passarem.
REFRÃO NÃO IDENTIFICADO: (Cantando) Água fluindo no subsolo.
BYRNE: (Cantando) No azul novamente.
REFRÃO NÃO IDENTIFICADO: (Cantando) Depois do…
SIMON: Achei muito reconfortante ouvi-lo esta noite. É a ondulação, não a onda, que está acontecendo.
BYRNE: Sim.
SIMON: São os pequenos traços.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: O mesmo de sempre. O mesmo que sempre foi. O mesmo que sempre foi.
E se você consegue descrever essas coisas, as coisas grandes meio que cuidam de si mesmas, de certa forma.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: O mesmo de sempre.
O mundo em um grão de areia ou algo assim. Você pode descrever uma pequena situação e todos reconhecem isso.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: Dissolução e remoção de água. E há água no fundo do oceano. Remova a água. Leve a água.
SIMON: David Byrne, muito obrigado.
BIRNE: Obrigado.
SIMON: Que bom estar com você.
BIRNE: Obrigado. Obrigado por ter vindo.
(SOUNDBITE DA GRAVAÇÃO ARQUIVADA)
BYRNE: (Cantando) O oceano. Deixando os dias passarem.
REFRÃO NÃO IDENTIFICADO: (Cantando) Deixe a água me segurar.
BYRNE: (Cantando) Deixando os dias passarem.
REFRÃO NÃO IDENTIFICADO: (Cantando) Água fluindo no subsolo.
BYRNE: (Cantando) No azul novamente.
REFRÃO NÃO IDENTIFICADO: (Cantando) Na água silenciosa.
BYRNE: (Cantando) Sob as rochas e pedras.
REFRÃO NÃO IDENTIFICADO: (Cantando) Há…
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