Por Manuela Andreoni e Isabel Teles
SÃO PAULO, 14 de março (Reuters) – Milhões de brasileiros devem assistir as estrelas de cinema entrarem no Dolby Theatre para a cerimônia do Oscar neste domingo, na esperança de testemunhar um de seus próprios ganhadores de ouro pelo segundo ano consecutivo.
“O Agente Secreto” do Brasil recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo a primeira indicação a um brasileiro de melhor ator para Wagner Moura, que ganhou o Globo de Ouro de melhor ator em drama nesta temporada. O reconhecimento surge um ano depois de “I’m Still Here” ter ganho o primeiro Óscar do país para melhor longa-metragem internacional, despertando orgulho e entusiasmo na nação de 213 milhões de habitantes.
Este ano, o diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso foi indicado por seu trabalho em “Trem Sonhos”.
Entrevistas com uma dúzia de diretores, produtores, executivos e analistas mostram que duas décadas de investimento governamental, incluindo um recorde de US$ 267 milhões da agência nacional de cinema Ancine no ano passado, ajudaram o Brasil a aumentar o número de longas-metragens que produz, aumentar as parcerias internacionais e aproveitar o fluxo de dinheiro dos serviços de streaming que buscam aumentar o número de assinantes.
Mas, com a mudança das prioridades orçamentais e uma eleição iminente que poderá trazer de volta conservadores céticos em relação ao financiamento do cinema, muitos na indústria temem que o apoio governamental possa não durar.
Mesmo assim, as exportações de serviços audiovisuais brasileiros cresceram 19% ao ano entre 2017 e 2023, quando atingiram US$ 507 milhões, segundo estudo encomendado pela Motion Picture Association. Alguns esperam que a indústria cinematográfica brasileira possa seguir os passos dos actores globais do entretenimento, como a Coreia do Sul, que exporta milhares de milhões de dólares por ano em conteúdos, em parte devido ao apoio substancial do governo.
O momento do Oscar da indústria destaca uma “tempestade perfeita” de maturidade, talento e grandes histórias, disse Josephine Bourgois, diretora executiva do Projeto Paradiso, uma organização sem fins lucrativos que apoia levar o cinema brasileiro ao público global.
“Além do apelo pop, o país também mostra que é um parceiro viável”, disse ela. “O Brasil é um lugar onde você pode trabalhar, um lugar onde você pode fazer negócios.”
DO FRESCO AO EXPERIMENTO DE NEGÓCIOS
Os ritmos tropicais frescos e cativantes do Brasil há muito despertam o interesse do público estrangeiro, como aconteceu com “Orfeu Negro”, vencedor do Oscar de 1960, ambientado no Rio de Janeiro, mas produzido pela França.
A popularidade do Brasil tem sido muitas vezes prejudicada pela sua imagem de país difícil para fazer negócios, com mudanças políticas abruptas, volatilidade cambial e infra-estruturas defeituosas.
No final da década de 1990, o Brasil parecia começar a quebrar essa imagem com uma extraordinária corrida ao Oscar, quando o diretor Walter Salles, cuja participação no banco de sua família o tornou um dos homens mais ricos de Hollywood, esteve perto de fazer história com “Estação Central”.
O filme foi indicado para melhor filme estrangeiro, como era então chamada a categoria, e a estrela Fernanda Montenegro se tornou a primeira brasileira indicada para melhor atriz. No ano passado, Salles ganhou uma nova chance com “Ainda Estou Aqui” e levou para casa o Oscar de melhor filme internacional. A filha de Montenegro, Fernanda Torres, foi indicada como melhor atriz.
No início dos anos 2000, a atual política brasileira de subsidiar as artes retornou no que a indústria chama de “momento de retorno”. As produtoras se multiplicaram e diretores, atores e outros profissionais do Brasil passaram a estar cada vez mais presentes em Hollywood.
O sucesso dos prêmios gerou sucesso nos negócios. Depois de “Cidade de Deus”, sucesso brasileiro indicado a quatro Oscars em 2004, o diretor Fernando Meirelles atraiu projetos para sua produtora O2, incluindo o filme “Cegueira”, de 2008, com Julianne Moore e Mark Ruffalo.
“Isso desperta interesse, conversas”, disse Andrea Barata Ribeiro, sócia fundadora da O2.
O que realmente ajuda, porém, segundo vários produtores, são os incentivos governamentais.
Kleber Mendonça Filho, que dirigiu “O Agente Secreto”, disse que grande parte de seu trabalho dependia de financiamento governamental. Seu primeiro longa, “Sons Vizinhos”, recebeu recursos para projetos fora dos estados mais ricos do sudeste do Brasil. O primeiro trabalho do roteiro de “O Agente Secreto” foi parcialmente financiado por um programa governamental que terminou sob o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro.
“Hoje meu nome está consolidado, mas as pessoas esquecem que comecei com um filme que veio de um programa de financiamento afirmativo”, disse Mendonça Filho.
Os cineastas pretendem manter o ritmo. Este ano, o Brasil levou um recorde de 10 produções para a Berlinale da Alemanha, um dos festivais de cinema mais prestigiados do mundo. “O Mundo do Gugu”, que acompanha um menino e sua avó cada vez mais frágil, ganhou dois prêmios fora da competição principal.
Os progressos alcançados no início dos anos 2000 lançaram as bases para uma indústria que está agora em expansão à medida que aproveita o boom global do streaming.
Monica Pimentel, vice-presidente de conteúdo da Warner Bros Discovery Brasil, disse que há cerca de 15 anos era um desafio encontrar produtoras para desenvolver alguns programas porque o mercado era muito pequeno.
“Hoje vejo como essas produtoras são extremamente qualificadas”, disse ela.
Executivos dizem que o principal motivo que orienta os investimentos de empresas multinacionais, como Netflix, Warner e Amazon, é atrair a audiência nacional da TV brasileira, inclusive com novelas, como a HBO fez com a sensação local “Scars of Beauty”. Mas isso também pode gerar cruzamentos globais.
A Netflix informou que as visualizações globais de conteúdo brasileiro cresceram 60% no segundo semestre de 2025. As produções incluíram “Rulers of Fortune”, um programa sobre a máfia do jogo ilegal no Rio de Janeiro, e “Caramelo”, um filme de 2025 sobre a amizade entre um chef e um vira-lata cor de caramelo, que esteve entre os 10 filmes mais assistidos da Netflix durante oito semanas, com quase 50 milhões de visualizações.
“O Brasil está entre os principais mercados da Netflix”, disse Elisabetta Zenatti, vice-presidente de conteúdo da Netflix Brasil, coprodutora de “O Agente Secreto”. “Há vários motivos para isso – nosso público, por exemplo, é conhecido por ser extremamente engajado, impulsionando o fandom e moldando conversas.”
Atores, produtores e diretores estão pressionando os legisladores a seguirem países como a França e a Austrália e apresentarem um projeto de lei que regulamenta os serviços de streaming, o que incluiria a exigência de uma parcela mínima de conteúdo local e o uso de algumas receitas para financiar a indústria local.
Os brasileiros também estão ansiosos para exportar mais conteúdo.
“Sob Pressão”, um drama popular exibido pela TV Globo do Brasil sobre um pronto-socorro que opera sob extrema escassez de recursos, está sendo adaptado para o mercado dos EUA. A novela de sucesso da Globo de 2012, “Avenida Brasil”, foi refeita na Turquia como “Leyla”, que agora está sendo oferecida de volta aos telespectadores brasileiros.
A atenção internacional empolgou artistas brasileiros com histórias que podem ajudar o país a se compreender. Ambos os recentes indicados ao Oscar exploram o doloroso legado da ditadura militar do país.
“Isso é algo em que os americanos são ótimos, criar e exportar sua cultura”, disse o ator indicado Wagner Moura em recente conversa online com Mendonça Filho.
Pensar que os brasileiros também podem fazer isso é “lindo”, acrescentou ele, “não apenas para os estrangeiros, mas para nós mesmos”.
(Reportagem de Manuela Andreoni e Isabel Teles em São Paulo; edição de Christian Plumb e Nick Zieminski)
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