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Leonardo Coelho4 de fevereiro de 2026
As mensagens políticas mais influentes do Brasil aparecem cada vez mais em um lugar improvável: as contas de fofocas do Instagram, mais conhecidas por rastrear corpos de praia e vidas amorosas de celebridades.
No final do ano passado, alguns desses relatos começaram a apresentar uma figura menos glamorosa – mas muito mais poderosa –: o governador Tarcísio de Freitas, de São Paulo.
@alfinetei, que tem mais de 25 milhões de seguidores, compartilhou um vídeo de Freitas e um motociclista comemorando a redução de impostos locais para motociclistas. @garotxdoblog, com 1,2 milhão de seguidores, postou imagens do governador inaugurando um novo trecho do Rodoanel de São Paulo. E @exclusivasdafama, com mais de 9,1 milhões de seguidores, informou que mobilizou forças policiais para combater a violência de género. A postagem terminou com um emoji de palmas.
Representantes de Freitas, que é membro do Partido Republicano do ex-presidente Jair Bolsonaro e é concorrendo à reeleição em outubro, negou que seu gabinete tivesse encomendado os cargos, de acordo com uma investigação pela revista Piauí.
Ainda assim, as publicações destacam como os relatos de fofocas sobre celebridades no Brasil estão confundindo a linha entre entretenimento e notícias, tornando-se um canal poderoso e levemente escrutinado para a criação de imagens políticas antes das eleições do país.
Muitos desses relatos imitam práticas jornalísticas, mas frequentemente espalham desinformação, disse Rogério Christofolleti, professor de ética da Universidade Federal de Santa Catarina.
“Do ponto de vista da ética jornalística, é bastante complicado”, disse Christofolleti em entrevista ao Revisão de Jornalismo da América Latina (LJR). “A informação só deve ser publicada quando for verificada, quando tiver substância, quando tiver densidade informacional.”
Memes e novidades
Os relatos de fofocas frequentemente têm maior alcance do que os meios de comunicação tradicionais. Dos 20 principais editores do Instagram no Brasil, quatro são contas que usam frequentemente notícias e memes para envolver o público, de acordo com o rastreador de mídia social Zeeng. São elas Alfinetei, com 25 milhões de seguidores, Gina Indelicada com 12,5 milhões, Central da Fama com 5,7 milhões, e Subcelebridades com 4,5 milhões.
Isso ocorre em parte porque os brasileiros passaram a contar com as mídias sociais para se manterem informados. Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo para 2025 mostra que 33% dos entrevistados brasileiros afirmam seguir criadores e influenciadores, enquanto 30% afirmam seguir marcas de notícias e jornalistas.
A produção de notícias tornou-se mais dinâmica com a onipresença das mídias sociais, de acordo com Eduardo Prange, pesquisador de big data da Zeeng. Os editores precisam se adaptar a formatos mais voltados para a sumarização.
“Temos uma cultura informacional primária aqui no Brasil, que é através dos memes. Acho que os memes são o principal ponto de partida para qualquer conversa”, disse Prange. LJR. “Quando a conversa esquenta, ela pode até repercutir em formatos de conteúdo mais tradicionais, mas os gatilhos para engajamento, interação, dispersão e viralidade vêm quase inteiramente dos memes.”
Isto é especialmente urgente porque os dados mostram que o Brasil é um país prolífico para criadores de conteúdo social, com mais de 2 milhõesfazendo isso um dos maiores do mundo mercados. O jornalismo ainda tenta se firmar, numa onda que está redefinindo a relação entre jornalistas e redações.
Carolina Terra, pesquisadora de comunicação digital da Universidade de São Paulo, disse LJR que, embora este tipo de páginas de fofocas utilizem frequentemente as notícias, elas não compartilham o compromisso ou os princípios éticos e jornalísticos como veículos legados.
“Quanto mais engajamento, mais visibilidade, melhor para eles”, disse Terra. “Eles entenderam que também seria interessante para eles irem além dessa cobertura da vida de celebridades e subcelebridades.”
Uma das alunas de pós-graduação do Terra, Nathália Sanches, desenvolveu o conceito de “conta despersonalizada”, ou seja, páginas mais parecidas com marcas e sem uma pessoa clara por trás delas. Essas contas são o que ela chama de “centros algorítmicos” ou laboratórios de viralização, disse ela.
“Como não têm compromisso de personalidade (ninguém exige ética de um logotipo sem rosto), são usados taticamente para testar narrativas”, disse Sanches. LJR. “Eles sacrificam a ética, a verdade, a verificação jornalística em troca da eficiência da distribuição.”
Padrões de uma agência
Nenhum gerente de contas de celebridades e fofocas respondeu aos pedidos de LJR compreender se e como aplicam padrões jornalísticos nas suas práticas diárias.
Mas a Banca Digital, uma das maiores agências de marketing online do Brasil, com mais de 50 contas, problemas enfrentados de rumores infundados sendo amplificados que levaram a mudanças internas.
Em 2023, uma conta que o Banca já havia representado chamada Choquei, que hoje conta com 27 milhões de seguidores, publicou informações falsas sobre um suposto caso entre uma influenciadora brasileira e uma fã.
A repercussão levou a mulher, então com 22 anos, ao suicídio. Polícia concluiu a mulher havia começado os boatos, e Choquei não enfrentou responsabilidade criminal, mas foi fortemente criticado por espalhar falsos boatos.
Embora Choquei não fosse cliente do Banca na época, outras páginas de fofoca menores de sua lista amplificaram a desinformação. Isto levou a uma busca interna por prestação de contas no Banca Digital.
“Todos têm uma responsabilidade, por isso, se acontecer uma crise, todos têm que parar e observar”, disse Alberto Pereira Jr., diretor de marketing e jornalismo do Banca Digital. LJR em uma entrevista. Ele confirmou que o Banca foi contatado diretamente por emissários do governador de São Paulo para fazer postagens nas contas que representa, mas a empresa recusou.
O Banca criou um protocolo interno e um manual orientador para o seu plantel. O primeiro visa identificar a circulação de informações falsas ou conteúdos sensíveis que possam ter efeitos adversos na “qualidade do discurso público”. Segundo a empresa, desde a adoção do protocolo, mais de 60 conteúdos foram retirados e cerca de 200 publicações passaram por alguma forma de retificação.
O livreto, compartilhado com LJRmostra um conjunto de boas práticas editoriais. Pereira disse ainda que um jornalista está sempre disponível para assessorar as contas.
Verificação básica de factos, creditar a fonte, respeitar os direitos de autor, contextualizar a publicação, respeitar a privacidade, corrigir erros, identificar claramente publicações pagas – estas são 101 para jornalistas, mas podem ser novas informações para criadores digitais.
“Queremos trabalhar na prevenção”, disse Pereira. “É melhor do que ter que perseguir as consequências mais tarde e arquivá-las, especialmente porque, uma vez fora do ar, sabemos que já está disponível.”
Para Christofolleti, é importante que os interessados no bom jornalismo como um todo estejam atentos neste ano eleitoral. Ele disse que o caso de São Paulo é uma campanha de desinformação.
“Eles usam esses meios de comunicação, que não são meios jornalísticos”, disse Christofolleti. Eles são “veículos que muitas vezes pertencem a celebridades ou cobrem celebridades, para abordar questões que lhes são estranhas”.
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