Da Cidade do México aos fins de semana de Fórmula 1, a CIE transformou a OCESA na máquina de bilhetes da América Latina. Mas por trás das noites esgotadas de Bad Bunny e dos gritos de Taylor Swift, os sustos das dívidas, as pandemias e as aquisições estrangeiras revelam o preço do espetáculo no México.
A multidão que finalmente se tornou um mercado
Em 27 de outubro de 2024, o Autódromo Hermanos Rodríguez tremeu quando Carlos Sainz venceu o Grande Prêmio de Fórmula 1 da Cidade do México. Parecia sem atrito. Para a Cidade do México, essa facilidade é o ponto principal: as reuniões de massa aqui já foram vistas como um problema.
A Corporación Interamericana de Entretenimiento (CIE), fundada em 1990 como Operadora de Centro de Espectáculos SA (OCESA), foi um dos principais motivos dessa mudança. Pela venda de ingressos, está entre as quatro maiores empresas de entretenimento do mundo. A CIE não apenas reserva atos – ela controla a infraestrutura: locais, ingressos, publicidade e vendas de alimentos, transformando a logística em alavancagem.
Este artigo foi adaptado do relatório original do Americas Quarterly e das entrevistas de Cyntia Barrera Díazo. As suas reportagens relembram os anos em que grandes concertos testavam os nervos do país. Em 1989, sem nenhum local na Cidade do México disposto a recebê-lo, Rod Stewart se apresentou em Querétaro e atraiu mais de 50.000 fãs; a segurança entrou em colapso e a polícia usou gás lacrimogêneo. O público estava pronto muito antes do sistema estar.
Paul McCartney e o estádio construído na improvisação
Alejandro Soberón Kuri, fundador da CIE, ajudou a construir esse sistema show por show. Em 1991, os dois primeiros concertos da empresa apresentaram o INXS no Palacio de los Deportes, construído para as Olimpíadas de 1968 e com capacidade para mais de 15.000 pessoas – um teste inicial para saber se grandes multidões poderiam ser gerenciadas na Cidade do México.
Em 1993, a CIE contratou Paul McCartney e se deparou com uma dura realidade: a cidade não tinha um local adequado para atender a demanda. O Estádio Azteca, sede de duas Copas do Mundo da FIFA, era o único lugar grande o suficiente, mas a Televisa recusou-se a alugá-lo. Seguindo o conselho do promotor de turismo Barrie Marshall, Soberón e sua equipe construíram uma solução alternativa em uma pista de automobilismo, montando estruturas de assentos de metal. Cerca de 120 mil ingressos foram vendidos para os dois primeiros shows de McCartney no México.
Semanas depois, Madonna trouxe sua turnê Girlie Show para o mesmo local, apesar dos esforços para censurá-la por conteúdo sexual e religioso. Ela escolheu o México depois de ouvir McCartney sobre seu show – um lembrete de que a reputação das turnês de um país se espalha por meio de artistas, não de folhetos.
Então chegou dezembro de 1994. A Crise da Tequila reduziu o valor do peso em mais de metade, quase da noite para o dia, e o dinheiro reservado para pagar os Rolling Stones e dezenas de outros artistas evaporou em dias.

Do resgate do Ipo à regra da maioria da nação viva
Para sobreviver e continuar crescendo, a CIE abriu o capital em dezembro de 1995. Seguiu-se a expansão e, em 2002, a Televisa investiu US$ 107 milhões para adquirir uma participação de 40% na OCESA Entretenimiento. Mas a dívida se acumulou. Em dezembro de 2009, a CIE anunciou um plano de reestruturação de US$ 400 milhões e começou a se desfazer de ativos não essenciais, concentrando-se novamente em concertos, teatro e festivais.
A recompensa cultural é agora inconfundível. Desde 2015, a CIE posicionou o Grande Prêmio de Fórmula 1 da Cidade do México como um evento de destino, ajudando a tornar o México uma parada confiável para passeios em estádios. Quando Taylor Swift trouxe sua Eras Tour para o Foro Sol em 2023, ela escreveu no Instagram: “Depois de anos querendo tocar na Cidade do México, acabei de fazer 4 dos shows mais inesquecíveis para os fãs mais lindos e generosos”.
O lado empresarial continua mais difícil de romantizar. A PwC classificou os setores de entretenimento e mídia do México como “em rápido crescimento” em julho, projetando uma taxa composta de crescimento anual de 6,26% que poderia atingir US$ 33,5 bilhões até 2029. A CIE opera 14 locais na Cidade do México, mais um em Monterrey e dois em Guadalajara, com capacidade superior a 312 mil visitantes. No entanto, a sua receita foi de cerca de 226 milhões de dólares no ano passado, um declínio de 3,9% em relação a 2023.
Em 2019, a Live Nation ofereceu cerca de US$ 400 milhões para adquirir uma participação de 51% na OCESA Entretenimiento, incluindo a participação da Televisa. A COVID-19 congelou a indústria e o negócio; A CIE chegou a transformar um centro de convenções num hospital temporário num país que registou mais de 600 mil mortes. Após o fracasso das renegociações, a Live Nation rescindiu a compra e seguiu-se a arbitragem, até que um novo acordo concluiu a aquisição no final de 2021.
No início deste ano, a Live Nation aumentou a sua participação para 75%. A CIE se recusou a conceder entrevista com o CEO Alejandro Soberón Kuri, alegando restrições de agendamento. Num relatório de junho, os analistas da HR Ratings projetaram um crescimento anual da receita de 2% entre 2025 e 2028, impulsionado pela normalização de eventos especiais e pela expansão do Grande Prémio de Fórmula 1 da Cidade do México.
O Grande Prêmio da Cidade do México está confirmado até 2028, e a CIE pretende conectar o evento mais estreitamente com o Dia dos Mortos. A verdadeira questão: quem controla a celebração?
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